Patrícia não é daquelas pessoas diferentes, que chamam a atenção por onde passam, na verdade a última coisa que ela faria, seria chamar a atenção em algum lugar, e não por causa de sua beleza, escondida pelas roupas nem um pouco sensuais que utiliza e falta de maquiagem constante, ela tem um quê de anônima, sua grande habilidade é realmente a de não captar olhares por onde passa, é quase uma câmera de vigilância com pernas e um pouco de carne.
Um dia, ao acordar, resolveu que queria escrever, queria ser um Saramago, um Garcia Marquez, sem a parte de ser homem, é claro, decidiu que a pintura seria apenas uma válvula de escape em sua vida, que a escrita seria seu novo abre-alas, assim, pegou um velho caderno que guardava há tempos em sua casa e começou, bom, não começou na verdade, ao abrir as páginas em branco, ela sentiu as amarras do nada em seu pescoço, e ali ficou, olhando para o caderno, por vários minutos, horas.
Todos seus pensamentos eram direcionados imediatamente a imagens, Patrícia viu, que o ato de desenhar palavras não era tão simples assim, ela andava pelos cantos, sentava, e nada de escrever alguma coisa, até que ela teve uma ideia, libertar suas mãos, escrever como pintava, se ela achava a palavra bonita, então ela entrava, se achava feia, poderia entrar também, Patrícia nunca foi de ter muitos preconceitos.
Enquanto escrevia, alguém bateu à sua porta, fato raro, pois Patrícia não era a mais popular das mulheres no planeta, ela demorou um pouco para atender, pois estava terminando de escrever, ao abrir a porta, ninguém mais estava por lá, e ela então sentiu a presença do instante-já em sua vida, a pessoa que havia batido já era passado, o futuro, que seria ela abrir a porta, já era passado também, a última respiração dela fazia parte de suas memórias agora, assim como a próxima ainda estava em um futuro que podia não chegar.
Cansada de escrever, Patrícia pegou suas ferramentas de pintura, e resolveu atacar sua parede com cores e formas, lá, o instante-já de uma pincelada ficava por tempo indeterminado, o que não significava muita coisa também, pois seus pensamentos seguiam uma linha sem parar, eram futuro, presente, passado, tudo isso em menos de alguns segundos, desenhando pela parede, algumas gotas caíram em sua mão, já um pouco manchada de tinta, ela sentiu como se as gotas se mexessem, sentiu cócegas, esboçou um sorriso e... ao dar por si estava dentro de sua parede, passeando na sua pintura, que não deixava de ser sua mente, envolvida pelo instantes já congelados pelas pinceladas, Patrícia parecia uma guria que descobrira seu parque de diversões, seu cabelo ficou mais ruivo que nunca, as tintas de seu quadro pularam em sua boca, formando um batom atraente pelos seus lábios pequenos, ela se divertia, parecia que o quadro era apenas uma janela, pois quanto mais caminhava para seu interior, mais as coisas tomavam forma, pulavam a seus olhos.
Dentro do quadro Patrícia via coelhos voadores, cavalos aquáticos, tudo que sua imaginação quisesse, foi quando ao longe, avistou um rapaz, ele estava de costas, usava terno com all-star, ela se aproximou vagarosamente, sentia um frio na barriga inexplicável, suas mãos suavam, ela parou por um instante, mas tomou coragem e seguiu em frente, sua mão estava a apenas alguns centímetros do ombro deste homem misterioso, vagarosamente ela a mexeu, até que.
Patrícia voltou bruscamente para seu quarto, alguém batia em sua porta, tomada pela raiva ela jogou suas coisas de pintura com força no chão e foi atendê-la, mas ao abri-la, novamente não havia ninguém, ela então decidiu parar de pintar e voltar a escrever, mas o dia já chegava ao seu fim, assim como as energias de Patrícia, ela sentou-se no sofá, começou a escrever sobre o que havia ocorrido, mas caiu no sono.
Sem dúvida era um lugar muito bonito, havia um frescor no ar, e as cores das flores se encaixavam magnificamente bem, Patrícia se sentia bem e feliz caminhando por este lugar, quando ao pisar em uma poça d’água, percebeu que na verdade ela era feita de tinta, com seus pés tomados pela cor amarela, ela caminhou pelo local, parecia ser um parque, mas havia algumas cachoeiras que caiam na imensidão de um abismo onde o lugar terminava, de repente, numa das pontas do parque, ela avistou o mesmo rapaz, ele continuava com seu terno e seu all-star que mudava de cores, hora era vermelho, hora verde, hora preto, ele caminhava em direção ao final do parque, ela decidiu então segui-lo, mas uma angústia a arrebatou, cada vez mais o homem chegava perto do abismo, ela foi ficando cada vez mais nervosa, caminhando cada vez mais rápido, ao ver que ele estava à beira do precipício, Patrícia começou a correr, mas sem sucesso, o rapaz havia pulado. Ela correu, correu, e quando chegava perto da beirada, seu coração quase saiu pela boca, passou por ela um ser voando, era o rapaz, ele parecia se divertir enquanto voava, olhava para os céus que pareciam ser de brinquedo, passou por uma nuvem e tirou um pedaço, era algodão doce, Patrícia gritou algumas vezes, mas o homem parecia não ouvi-la, ela então tomou coragem, respirou fundo e correu para o abismo, pulou.... e caiu, foi despencando em queda livre, tudo parecia não ter fim, ao olhar para cima ela viu que o rapaz vinha a seu encontro a toda velocidade, ela finalmente veria seu rosto, finalmente o conheceria, ele chegava cada vez mais perto.
Alguém batia à porta de Patrícia, e novamente ela era retirada de seu sonho, ela acordou com dificuldade, ficou parada por um instante, e então saiu correndo para abrir a porta o mais rápido possível, mas lá, já não havia ninguém novamente. Ela voltou para seu quarto, lá se sentou na cama e decidiu pensar um pouco sobre o ocorrido, apesar de ter acabado de acordar, a noite de sono havia sido ruim e ela ainda estava bem cansada, então ela se levantou e caminhou para a janela de seu apartamento, uma janela enorme, que tomava toda uma parede lateral, no entanto, uma cortina escura a mantivera fechada até o momento, Patrícia caminhou e puxou toda a enorme cortina, deixando seu apartamento incrivelmente bem iluminado, só aí ela percebeu que o dia amanhecia, ela ficou bem próxima ao vidro e olhou para as pessoas na rua que caminhavam apressadas.
Foi quando, viu. De costas o jovem de terno e tênis joviais, ele falava ao celular, sem dúvida era ele, Patrícia sentiu seu coração acelerar, duzentos ou trezentos metros os separavam, ela então decidiu sair de seu apartamento, e descobrir quem era este ser misterioso que habitava seus sonhos há tempos, foi correndo à porta, mas, não achava a chave, há apenas cinco minutos ela acabará de abrir a porta, e no momento, as chaves tinham simplesmente desaparecido, ela procurou agressivamente por toda a sala, jogando coisas no chão, mas não as achava, correu para a janela novamente e viu que o jovem se afastava já, rumo ao horizonte alaranjado daquela manhã, desesperada ela procurou pela chave, em todos os lugares possíveis e imagináveis, sem achá-la, pensou em tentar quebrar a porta, mas foi novamente à janela e viu que o jovem não mais estava dentro de seu campo de visão.
Arrasada, Patrícia caminhou para seu canto de pintura, o jovem mexia de tal forma com suas emoções que em seu rosto escorreu uma lágrima, sentou ao chão e ao apoiar a mão, viu, que embaixo de um grande pincel, a chave caprichosamente se escondia, ela a pegou e olhou por alguns instantes, quando tomou a decisão, se não podia encontrá-lo, iria pintá-lo.
Arrumou suas tintas e começou seu trabalho, apesar de já tê-lo visto, as pinceladas de Patrícia eram disformes e confusas, não havia preenchimentos, apenas formas, ela estava hipnotizada, pincelava sem tempo até para respirar, quando terminou, voltou a si e viu o que havia feito, na verdade, apenas a silhueta de um homem feita com as palavras alto, moreno, terno, all-star, misterioso, voar. Pegou então seu caderno e resolveu escrever, sentou-se de costas para a silhueta e escreveu, alguns minutos, foi se envolvendo na escrita, seus olhos estavam fixos no caderno, quando sentiu algo tocar seu ombro, tomada por medo e euforia, ela não virou para trás, sentia que o que a tocara, descia pelo seu braço, rumo a sua mão, foi quando viu a mão de seu desenho feito de palavras, ela se colocou sobre a mão dela, e começou a guiá-la, a palavra era sonh e começava a se transformar, tomava a forma de um coração nuvem, Patrícia foi se encantando, já não tinha medo, e resolveu virar sua cabeça.
Batiam novamente à porta, Patrícia voltou a si e viu o desenho em seu caderno, olhou para seu braço sujo de tinta preta, se levantou para abrir a porta, mas novamente, ninguém estava por lá.
Cansada dos acontecimentos, Patrícia pegou suas tintas e começou a pintar a paisagem de sua primeira visão na janela, o ambiente bucólico contornava a imagem da cidade ao fundo, enquanto pintava, Patrícia olhava pela janela, buscando ver novamente o jovem misterioso, ela pintará a paisagem de maneira de deixar o próprio céu da cidade ser o da paisagem também, mais um dia acabava e os tons amarelos e alaranjados do céu deixavam a pintura incrivelmente bonita.
Admirando sua obra, Patrícia se aproximou da janela, e o viu novamente, bem ao fundo vinha o jovem caminhando, em direção à janela de Patrícia, ela abriu um largo sorriso, a distância ainda não permitia ver seu rosto com clareza, mas ela sequer piscava, para não perder nenhum momento, quando bateram na sua porta, ela não sabia o que fazer, fez menção de ir a porta, mas parou no meio do caminho, voltou para janela, ele estava ficando cada vez mais próximo, seu rosto cada vez mais claro, quando bateram novamente a porta, dessa vez com mais força, Patrícia foi correndo, achou a chave rapidamente e a abriu, mas não havia ninguém ali, a bateu com força e voltou correndo para a janela, mas o jovem não estava mais lá, uma tristeza profunda tomou conta dela, que se ajoelhou em frente a janela, uma lágrima colorida começou a escorrer pelo seu rosto, batiam novamente na porta, ela não reagia mais, o dia terminava, a lágrima pintava seu rosto enquanto escorria, ela continha uma mistura de cores, e já chegava a sua bochecha, quando um dedo suavemente a enxugou, Patrícia ergueu o rosto devagar e viu, era ele, com seu terno azul escuro, seu all-star mutante, ele sorria para Patrícia enquanto voava, do outro lado do vidro, seu sorriso era sublime e sereno, ela se levantou e levou a mão para tocá-lo, mas a bateu no vidro sem pintura, nenhuma pessoa na rua olhava para cima, só Patrícia podia ver o homem pássaro, as batidas em sua porta continuavam sem parar, agora eram intercaladas por pausas de alguns segundos e voltavam a ocorrer, ela não dava o mínimo para as batidas, a angústia começou a tomar conta de seu ser por não poder tocá-lo, quando ele voou para uma parte onde havia tinta na janela, parada em frente a esta parte ele colocou sua mão na altura do vidro, Patrícia fez o mesmo, e a tinta começou a invadir seu braço, em alguns instantes, todo ele já havia passado pelo vidro, o jovem a ajudava a ultrapassar a barreira, e quando terminou a abraçou, para que não caísse de seus braços, Patrícia o sentiu pela primeira vez, era macio, e a sensação de estar com ele era tão boa, que ela sentiu poder voar, ele a soltou vagarosamente, até que ela se estabilizasse no ar, ao virar-se, ela não viu mais o interior de seu apartamento, ela voava agora pela paisagem inicial e seu prédio havia se tornado uma linda cachoeira, o jovem começou a subir, quando se virou e trocou um olhar com Patrícia, lhe deu a mão e os dois foram juntos para o descampado, passando por uma nuvem, ele pegou um pedaço,o entregando a ela, que comeu o algodão doce maravilhada, enquanto era guiada por aquele ser de sensações e instantes.
Adaptação inspirada no conto Água Viva de Clarice Lispector para a disciplina de direção de arte do curso de Imagem e Som da UFSCar.